domingo, 21 de outubro de 2007

CARTOLA: A ELEGÂNCIA SURGE DA ADVERSIDADE


Mestre Cartola e seu pinho

Cartola poderia ser um dos inúmeros compositores geniais que não tiveram seu nome e sua obra reconhecidos. A história é parecida com a de muitos de seus pares: nascido Angenor de Oliveira, no bairro do Catete, em 11 de outubro de 1908, a família pobre teve que se mudar do bairro mais tradicional para o morro de Mangueira, já em 1919. A mãe morreu quando ele tinha quinze anos. O pai, sem condições de sustentar a família numerosa, optou por cuidar das filhas e tomou a decisão de mandar o adolescente Angenor cuidar da própria vida.
Assim, aos quinze anos, vivendo sob marquises e em barracos improvisados em Mangueira, precisou arrumar trabalho e passou a freqüentar as rodas boêmias, para que a vida seguisse e as preocupações fossem esquecidas.
Aprendeu a tocar o violão e foi aceito como parceiro dos bambas de Mangueira. Fez parte do Bloco dos Arengueiros, e passou a desfilar nos carnavais. Sua primeira tentativa de composição foi o samba "Chega de demanda", considerado ruim. Mas os compositores mais velhos o incentivaram a continuar.
Trabalhou numa tipografia, mas como não conseguia trabalhar quieto, sem assoviar ou cantarolar, acabou trocando o emprego de tipógrafo para alistar-se na construção civil. A movimentação e o falatório dos operários, que assoviavam, batiam, subiam, desciam, gritavam e ainda mexiam com as moças que passavam, atraiu o jovem.
Aprendeu a profissão de pedreiro. E por causa dela, ganhou o apelido que o consagraria: o pó de cimento grudava na sua cabeça, incomodava, era difícil de sair. A elegância natural de Angenor o fez optar por um chapéu-coco para se proteger. No trabalho, os colegas tiravam sarro:

- Por que você não usa uma cartola de uma vez? Ei, você aí, com este chapéu! Ei, você de cartola! Ô, Cartola!

O apelido pegou e o recém-batizado Cartola passou a escovar toda noite o chapéu, para exibi-lo do alto dos andaimes, chamando atenção das meninas que passavam e mexendo com elas.
O nome de batismo sempre o deixou intrigado. Descobriu que era Angenor e não Agenor quando foi tirar a certidão de nascimento, para se casar.

- Angenor, ora essa! Eu sempre pensei que era Agenor!

A história da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira está ligada a Cartola.
Na década de 1920, os antigos blocos de carnaval começavam, ainda de maneira incipiente, a se organizar como sociedades. No Estácio de Sá, onde moravam Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (o Bide), Nilton Bastos, entre outros, formou-se a primeira agremiação a ser chamada de "escola de samba": Deixa Falar.
Na época, os blocos de Estácio e Mangueira cultivavam uma amizade de longa data. Às segundas-feiras, a Deixa Falar subia o morro em homenagem à Mangueira. Às terças, os mangueirenses retribuíam a homenagem, subindo o morro do Estácio.
A influência da Deixa Falar fez com que Mangueira também organizasse sua escola de samba. E foi Cartola quem sugeriu o nome, "Estação Primeira de Mangueira", e as cores verde e rosa para o estandarte. Cartola nos conta:

- O primeiro concurso de escolas de samba foi promovido em 1929 ou 1930, na Praça Onze, pelo José Spinelli. Ele comprou umas taças numa loja da Praça Onze, mesmo, sentou-se como único juiz numa cadeira e assistiu ao desfile das poucas escolas que havia. Ganhou a Mangueira.

Este fato seria relembrado no samba Sala de Recepção, gravado no segundo disco de Cartola, em 1976:

"Habitada por gente simples
E tão pobre
que só tem o sol
que a todos cobre
Como podes Mangueira cantar?
Pois então saiba
que não desejamos mais nada
À noite a lua prateada
Silenciosa
Ouve as nossas canções
Bem lá no alto um cruzeiro
Onde fazemos nossas orações
E temos orgulho
de ser os primeiros campeões”.

CONTINUA...

4 comentários:

rodrigo disse...

Grande André!!
Parabéns por estes textos tão enriquecedores. Leio sempre e espero anciosamente o proximo.
Vida longa ao Instantaneos do Samba.
Abracao

rodrigo disse...

Grande André!!
Parabéns por estes textos tão enriquecedores. Sempre leio e espero ansiosamente o proximo.
Vida longa ao Instantaneos do Samba.
Abracao

André Rosa e Silva disse...

obrigado, rodrigo! espero corresponder à altura.

::UnderGround:: disse...

add seu blog professor...
gostei do post sobre joão gilberto...
salve salve a bossa nova!!!!!!
abraço...
peace...