sábado, 24 de novembro de 2007

NELSON E AS FLORES


Nelson Cavaquinho: um esteta da música brasileira

Nelson Antonio da Silva nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de outubro de 1911. Teve uma infância e adolescência pobre, o que o levou a morar em várias residências, na Lapa, no subúrbio de Albuquerque e no bairro da Gávea - o preço dos aluguéis impelia à sua família uma vida itinerante.
Deixou a escola cedo: nem bem terminara o terceiro ano, teve que trabalhar numa fárbrica de tecidos e logo depois, como auxiliar de eletricista.
Paralelamente, iniciava a formação musical - seu pai, Brás Antônio da Silva, tocava tuba na Banda da Polícia Militar, e lhe ensinava as primeiras notas. Um tio violinista também lhe deu algumas lições, e o inventivo Nelson o acompanhava (ou tentava) num instrumento de fabricação caseira - fios de arame esticados numa caixa de charutos.
Porém, a música entrou pra valer em sua vida a partir da participação nos bailes de clubes como Chuveiro de Ouro, Gravatá ou Carioca Musical. A convivência nos clubes o levou a conhecer Heitor dos Prazeres, Edgar da Flauta e o violonista Juquinha, que lhe deu as primeiras noções de como tocar violão e cavaquinho. Nesta época, Nelson desenvolveu seu estilo de tocar com apenas dois dedos, puxando as cordas, quase de maneira percussiva.


Nelson Cavaquinho e Heitor dos Prazeres

Sem dinheiro pra comprar um instrumento, aprendeu observando, conversando e tomando emprestado os instrumentos dos velhos chorões, durante as rodas de choro. As rodas de choro eram marcadas pela execução, durante longas horas, de variações melódicas em torno de um mesmo tema. Em determinado momento, o solista modulava a melodia de forma que o acompanhante se atrapalhava na procura de uma nova posição, e que obrigava a saltos de tom. Nesses momentos, acontecia o que se chamava "queda" de tom, e os mestres do instrumento se destacavam por não "cair" nas armadilhas dos companheiros. Viriato Figueira da Silva, compositor dos primeiros tempos do choro, no século XIX, compôs a sugestiva polca "Caiu... Não disse?", como referência a esses improvisos. As primeiras composições de Nelson Cavaquinho também mencionam este evento: Gargalhada, em homenagem ao mestre Juquinha, que ria sempre que dava uma queda, e "Queda".
O apelido "Cavaquinho" foi acoplado a seu nome quando, aos 21 anos, casou-se pela primeira vez. A família e a esposa Alice insistiam para que arranjasse um emprego condizente com a situação de pai de família e homem sério, mas Nelson passava a maior parte do tempo entre bares e botequins da Lapa, longe do bairro onde morava. Só voltava para casa quando o dinheiro - e o crédito - acabavam, sempre acompanhado de um cavaquinho e uma galinha. A esposa dispensava o instrumento e depenava o frango para fazer a canja das crianças. Dias depois, Nelson sumia novamente.
Amigos de seu pai, compadecidos da situação, arranjaram um emprego como cavalariano da Força Pública. Com o salário de servidor e a comissão que o novo policial cobrava das prostitutas da Lapa trouxe uma certa estabilidade à família.
A função não poderia ser mais apropriada: patrulha dos botecos dos morros, para impedir arruaças e brigas. As prisões eram desnecessárias - o praça bebia e conversava com o baderneiro até tudo se acalmar. Nelson conta que o cavalo conhecia todos os muquifos e parava em todas, pois também gostava de uma cachacinha:
- Ele ficava na porta do boteco, batendo a pata no chão, até que o dono do bar levasse um pouco de pinga pra ele.
Nestes tempos, Nelson iniciou a parceria com Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Fome. Foi neste tempo que compôs seu primeiro samba: Entre a cruz e a espada.
Depois de sete anos de casamento, Alice morreu e os filhos do casal foram viver com a avó materna. Nelson, livre das responsabilidades, saiu da polícia e foi viver como boêmio e sambista.
Para viver, Nelson passou a compor: trocava suas composições por hospedagens, cachaça, comida, roupas. Não tinha consciência de que seus sambas possuiam grande valor. Uma história peculiar: um "parceiro" comprara um samba e apareceu reclamando:
- Compadre, nós estávamos muito bêbados quando eu comprei aquele seu samba, e agora, não me lembro mais da letra nem da música...
- Azar o seu, meu compadre, porque eu também esqueci tudo.
Com os 5 mil réis que lhe rendera a composição, Nelson comeu uma semana no Bar do China.
CONTINUA...

8 comentários:

nanoross disse...

nAno

muito boa a explanação dos bons velhos tempos em que a música era muito mais do q só a música....

André Luis Rosa e Silva disse...

obrigado, nano, pelo comentário.
ajude a divulgar essa parada aos historiadores do meu brazyl.
hehehehehehehehehehehehe.

Gera disse...

olá André...
é bom saber um pouco mais sobre a história dos chorões..
abraços

Leni disse...

oi André, vim buscar meu doce ... rs..rs... brincadeirinha
gostei muito, vc está de parabéns seu blog está cada vez mais interessante ... vamos ver se agora sai meu comentário nunca consigo, oh cabeça!
Leni

André Luis Rosa e Silva disse...

leni, obrigado pelo comentário.
eu dou o doce quando for a são paulo.
beijos e abraços

André Luis Rosa e Silva disse...

gera, obrigado pelo comentário.
divulgue aí pros seus amigos.
abraços

Paulão Fardadão disse...

Ser sambista é melhor q ser bluesman?

André Luis Rosa e Silva disse...

eu acho que sim, paulo, principalmente porque falamos em português. mas nada contra o blues, viva muddy waters, que seria bom falando em qualquer língua.