Alguns dizem que a morte é a suprema ironia do destino. Um belo dia, morremos. Então, nada mais faz sentido algum. Ainda que se acredite num estado posterior à morte, é inevitável pensar que a ausência será irreversível.
Na semana que passou, morreram duas pessoas importantes: minha tia Eny, irmã da minha mãe, faleceu na terça-feira. Hoje, quando saía da faculdade, fui informado da morte de
João Paraílio Cunha.
Paraílio Cunha, homenageado no Sesc, em 2006Seu Paraílio, como era conhecido, ou Mestre Paraílio, como eu preferia chamá-lo, foi
uma das grandes figuras do samba e do choro em Ponta Grossa. Quando falo ou escrevo sobre o "samba em Ponta Grossa", a reação de muitas pessoas é às vezes de espanto, outras de deboche. Quase sempre é necessário contar que sim, Ponta Grossa tem tradição de samba e choro, que aqui apareceu de uma maneira peculiar - através dos operários da extinta Rede Ferroviária Federal S/A - e se desenvolveu principalmente nos bairros de Olarias e Oficinas, onde vivia um grande número de trabalhadores da Rede, que também mantinha forte ligação com agremiações como
Olinda Esporte Clube e o centenário
Clube 13 de Maio. O samba chegou em PG - como quase tudo, entre o final do século 19 e a primeira metade do século 20 -
pelo trilho do trem.
João Paraílio Cunha nasceu em Jaguariaíva, em 1925. Era funcionário da Rede Ferroviária, mas a música e seu estilo de tocar o cavaquinho e o violão, o tornaram desde a mais tenra idade em um dos grandes músicos do seu tempo. Em 1960, ele veio a Ponta Grossa e aqui fez parte de vários conjuntos que animavam bailes nos clubes da cidade com sambas e boleros. Gravou um disco com o conjunto
Choros Eternos, que era formado pela velha guarda da música princesina.
Tive o privilégio de conviver e tocar com esta figura maravilhosa, um verdadeiro Mestre da música e da arte de viver. Jamais poderei esquecer da noite em que o Cabide de Molambo apresentou um espetáculo, que reuniu um grande público no Sesc, e fizemos uma homenagem especial a ele e à sua história. Quando o convidamos para o palco, ele foi ovacionado pela platéia.
Aquele foi um dos dias mais mágicos e felizes da minha vida.
Sua perda é irreparável, especialmente nestes dias em que a grandeza de caráter é tão ausente da nossa bela vidinha social...
Em sua homenagem,este
post e a lembrança de um ser humano alegre, solidário, um grande músico e um Grande Homem, que com seu exemplo de vida e de arte, jamais será esquecido.
Mestre Paraílio, vamos sentir saudades!